14/01/2009

- Já tinha visto isso antes?

- Não, nem da outra vez. Acho que não acontece sempre.

- É verdade. E o que fazemos agora? Acordamos ela?

- …

- Veja, eu não sou o dono da verdade neste lugar. Mas entenda que se não a acordarmos  talvez a coisa se complique muito.

- Existe a possibilidade de nos acontecer alguma coisa?

- Me parece que sim. Mas somos dois, devemos dar conta do recado.

- …

- Que está fazendo?

- Destravando a arma. Lembra da velocidade dessa coisa? Lembra do professor que morreu durante a aula?

- Não devemos matá-la.

- Amigo, pode existir um momento em que eu não pense nisso e dispare o gatilho – não me culpe.

- Espere um pouco, parece que vi alguém! Sim, tem alguém vindo lá por cima. Vê?

- …

- Ali mais adian-

- …

- Aconteceu o que estou pensando que aconteceu?

- Parece que sim.

- Você acha que ela fugiu ou está escondida?

- Acho que as coisas terminaram para nós.

- Não seja louco, ainda temos uma chance!

- Qual, exatamente?

- Podemos caminhar de volta e chegarmos ilesos, sem sermos atacados.

- Fala de milagre?

- Falo de sorte.

- Falo de azar.

- Não falo de morte.

- Eis que a vi.

- Por favor, não me mostre.

- Sossega, vamos andar.

- Assim, para baixo?

- Assim, vamos andar.

- Parece que já me pegou.

- Sossega, sustenta o olhar.

- Já não me aguento, já me pegou.

- Não vou olhar.

- Não olhe, já está perto de ti.

- Está vivo? Fala que sim.

- Estou, mas já longe de ti.

- Ainda tenho jeito?

- Tudo tem jeito, basta estar longe de mim.

21/12/2008

Vejo a escuridão lá fora e o brilho cravado de alguma estrela. Se saímos de casa há tanto tempo e pairamos no meio do nada há tanto tempo, o que é que não vem nos ajudar? Se sabemos que tudo é possível em qualquer lugar, como é que me aparece o seu fantasma e me assusta tão ridiculamente? Nesta nave condenada não há quem me veja e não pense que está ficando louco, pois é tanto o meu desconcerto. Mas de qualquer modo, a falta da atmosfera, de um pedaço de terra e do cheiro de alguma coisa original não irá me impedir. E de qualquer jeito eu volto por você. Hoje vou matar o capitão e o pânico vai se instaurar, ninguém saberá que eu o fiz. Me sobrarão mais 86 contrários, somente cinco concordam comigo e me apoiariam na rebelião. E penso como é possível que haja tanta gente que não morra de vontade de voltar pra casa e pra perto de quem ama depois de tanto ver a escuridão lá fora e o brilho cravado de alguma estrela e por tanto e tanto tempo e não se sabe mais o que diz e o que pensa e o que vê não basta e não há tanta distância em todo lugar que eu não queira cruzar pra ficar contigo de novo, mas eu imploro, vamos matar o capitão e tentar nos dar um novo começo que dessa nave, desse espaço e dessas estrelas não é mais possív-.