- Já tinha visto isso antes?
- Não, nem da outra vez. Acho que não acontece sempre.
- É verdade. E o que fazemos agora? Acordamos ela?
- …
- Veja, eu não sou o dono da verdade neste lugar. Mas entenda que se não a acordarmos talvez a coisa se complique muito.
- Existe a possibilidade de nos acontecer alguma coisa?
- Me parece que sim. Mas somos dois, devemos dar conta do recado.
- …
- Que está fazendo?
- Destravando a arma. Lembra da velocidade dessa coisa? Lembra do professor que morreu durante a aula?
- Não devemos matá-la.
- Amigo, pode existir um momento em que eu não pense nisso e dispare o gatilho – não me culpe.
- Espere um pouco, parece que vi alguém! Sim, tem alguém vindo lá por cima. Vê?
- …
- Ali mais adian-
- …
- Aconteceu o que estou pensando que aconteceu?
- Parece que sim.
- Você acha que ela fugiu ou está escondida?
- Acho que as coisas terminaram para nós.
- Não seja louco, ainda temos uma chance!
- Qual, exatamente?
- Podemos caminhar de volta e chegarmos ilesos, sem sermos atacados.
- Fala de milagre?
- Falo de sorte.
- Falo de azar.
- Não falo de morte.
- Eis que a vi.
- Por favor, não me mostre.
- Sossega, vamos andar.
- Assim, para baixo?
- Assim, vamos andar.
- Parece que já me pegou.
- Sossega, sustenta o olhar.
- Já não me aguento, já me pegou.
- Não vou olhar.
- Não olhe, já está perto de ti.
- Está vivo? Fala que sim.
- Estou, mas já longe de ti.
- Ainda tenho jeito?
- Tudo tem jeito, basta estar longe de mim.
Vejo a escuridão lá fora e o brilho cravado de alguma estrela. Se saímos de casa há tanto tempo e pairamos no meio do nada há tanto tempo, o que é que não vem nos ajudar? Se sabemos que tudo é possível em qualquer lugar, como é que me aparece o seu fantasma e me assusta tão ridiculamente? Nesta nave condenada não há quem me veja e não pense que está ficando louco, pois é tanto o meu desconcerto. Mas de qualquer modo, a falta da atmosfera, de um pedaço de terra e do cheiro de alguma coisa original não irá me impedir. E de qualquer jeito eu volto por você. Hoje vou matar o capitão e o pânico vai se instaurar, ninguém saberá que eu o fiz. Me sobrarão mais 86 contrários, somente cinco concordam comigo e me apoiariam na rebelião. E penso como é possível que haja tanta gente que não morra de vontade de voltar pra casa e pra perto de quem ama depois de tanto ver a escuridão lá fora e o brilho cravado de alguma estrela e por tanto e tanto tempo e não se sabe mais o que diz e o que pensa e o que vê não basta e não há tanta distância em todo lugar que eu não queira cruzar pra ficar contigo de novo, mas eu imploro, vamos matar o capitão e tentar nos dar um novo começo que dessa nave, desse espaço e dessas estrelas não é mais possív-.